O nome de Fernand Deligny [ 1913-1996 ], tradicionalmente associado a experimentações psicopedagógicas do pós-guerra na França, é hoje objeto de redescoberta nos campos das artes, da antropologia, da educação, da filosofia e da clínica. Com esse II Encontro Internacional, que dá continuidade ao Encontro realizado em 2016, nos debruçaremos em particular sobre a articulação entre práticas clínicas e práticas artísticas, e o modo através do qual essa articulação é capaz de questionar as normas sociais vigentes. Longe da pedagogia especializada ou da arteterapia, as propostas de Deligny consistem em verdadeiras experimentações coletivas com notável alcance sociopolítico. Extremamente atuais, elas nos convocam a pensar estratégias micropolíticas frente às urgências de nosso tempo.
A proposta do evento é, portanto, relançar o gesto de Deligny que, ao longo de mais de 50 anos, realizou tentativas de encontro com a diferença através de práticas transversais, implicando outras maneiras de tecer redes e de nos deixar enredar, novas tramas nas quais outras formas de viver, outros modos de existência e de convivência tornam-se possíveis. A dimensão experimental, central em seu pensamento e em sua prática, busca antes de tudo a invenção de contextos e meios que propiciem reconfigurações espaciais e coletivas, através de ferramentas como mapas, câmeras, objetos, e instalações.
Embora as tentativas de Deligny sejam situadas geográfica, histórica e politicamente, o encontro aposta na possibilidade de reativar suas propostas de construção de um meio capaz de renovar as práticas comuns. Seu gesto, poético, político e construtivo, renova assim, na atualidade, a potência de abrir espaço e fabricar brechas em meio e contra o aniquilamento que vivemos.

O Encontro é fruto de uma cooperação franco-brasileira e do projeto La tentative Deligny [ École Universitaire de Recherche ArTeC, Universidades Paris 8 e Paris Nanterre ], assim como da colaboração nascente com pesquisadores de outros países da América Latina e da Alemanha. Para a sua realização, ocuparemos uma rede de lugares no Rio de Janeiro: PUC-Rio, Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Casa Jangada, Casa 69 e Museu de Arte do Rio – MAR.

Comissão organizadora
Maria Alice Poppe [ UFRJ ]
Marlon Miguel [ ICI Berlin ]
Tania Rivera [ UFF ]
Mauricio Rocha [ PUC Rio ]

Comitê Científico
Bernardo Carvalho Oliveira [ UFRJ ]
Catherine Perret [ Université Paris 8 ]
Eduardo Passos [ UFF ]
Elena Vogman [ IKKM Weimar/ Kunsthochschule Weißensee ]
Guillaume Sibertin-Blanc [ Université Paris 8 ]
Hervé Joubert-Laurencin [ Université Paris Nanterre ]
Luiz Eduardo Aragon [ PUC-SP ]
Marlon Miguel [ ICI Berlin ] 
Maurício Rocha [ PUC-Rio ]
Noelle Coelho Resende
Pascal Sévérac [ Université de Paris-Est Créteil ]
Peter Pal Pelbart [ PUC-SP ]
Pierre Macherey [ Université Lille Nord de France-Campus Lille III ]
Pierre-François Moreau [ École Normale Supérieure de Lyon ]
Sandra Alvarez de Toledo [ Éditions L’Arachnéen ]


PROGRAMA

QUARTA 23 DE OUTUBRO
PUC-Rio, Auditório B8 – Ala Frings [ Rua Marquês de São Vicente, 225 – Gávea ]

14h Abertura

15h / 16h Deligny político – Moderação: Maria Alice Poppe
Bernardo Oliveira e Maurício Rocha: Agonística sonora: sobre o valor pedagógico do silêncio – notas sobre esquizo-pedagogia, experiência, formação e revolta sonora
Ana Laura García: Deligny latinoamericano: la potencia de una recuperación situada de su pensamiento y los desafíos que plantea esta construcción

16h30 / 17h50 Tentativas etnográficas – Moderação: Ana Laura García
Asun Pié Balaguer : La insurrección de la vulnerabilidad
Adriana Frant: Felizes Trópicos
Sônia Regina da Luz Matos e Andressa Vieira: Vagando na Praça Dante Alighieri: uma epifania

18h20 / 19h20 Infância inadaptada – Moderação: Maurício Rocha
Michael Pouteyo: Du grand reportage au roman d’éducation: comment écrire l’enfance ? [1920-1960]
Diego Silva Balerio: Adolescencias, práctica educativa y subjetivación cartográfica: manifiesto contra el moralismo de un orden social podrido

20h / 21h Potências do silêncio – Moderação: Adriana Frant
Pedro Almeida: Contribuições para uma clínica com o real
Noelle Resende e Eduardo Passos: Silêncio como aposta clínico-política de cuidado


QUINTA 24 DE OUTUBRO
Escola de Cinema Darcy Ribeiro [ Rua da Alfândega, 5 – Centro ]
Sala 14, 3º andar e Sala Ruy Guerra

10h Fala-performance [ Sala 14, 3º andar ]
Aproximações Vagabundas, com Maria Alice Poppe e Laura Samy

11h / 13h Cinema e experimentação – Moderação: Martin Molina [Sala 14, 3º andar]
Olivia Pires Coelho; Rafael Limongelli; Silvio Gallo: INCURÁVEIS – normopatologização dos corpos jovens e descolonização da infância.
Gabriela Guarnieri Tebet; Wenceslao Machado de Oliveira Jr; Meiry Soares da Costa Pereira: BEBÊS, CRIANÇAS E CORPOS-CÂMERA: Geografias giratórias e experimentações cartográficas com Fernand Deligny
Stéphane Privat: Un “problème Deligny” posé au cinéma
Cezar Migliorin: Cinema, clínica e mafuá

14h30 / 16h Conferência e debate [ Sala Ruy Guerra ]
Deligny et Glauber: tentative de dialogue sans paroles, com Hervé Joubert-Laurencin e Marianne Dautray

16h30 / 18h30 Ateliê apresentação e discussão de arquivos fílmicos e fotográficos [ Sala Ruy Guerra ]
Puntos de ver: imágenes de las red en las cevenas a la prueba del cine etnográfico, com Marina Vidal-Naquet e Martin Molina


SEXTA 25 DE OUTUBRO
Casa Jangada [ Rua General Cornélio de Barros, 5 – Botafogo ]
Casa 69 [ Travessa Visconde de Morais, 69 – Botafogo ]

10h30 Apresentação da Casa Jangada
Coletivo Jangada

11h / 12h30 Por uma outra clínica possível – Moderação: Eduardo Passos [ Casa Jangada ]
Mariana Louver: Cuidado, criação e comum: experimentando jangadas
Williana Louzada: Saúde mental pública brasileira como resistência clínico-política

12h30 / 14h Almoço coletivo na Casa Jangada

14h / 15h30 Tentativas clínicas – Moderação: Tania Rivera [ Casa Jangada ]
Gina Ferreira: Empresta-me os seus olhos
Lula Wanderley: o silêncio que as palavras guardam
Hélia Borges: uma Rosa, o traçado antes da letra, o balbucio antes da palavra (o antesmente-verbal)

16h / 16h40 Performance sonora [ Casa Jangada ]
Sonorar, com Bernardo Oliveira e Lucas Pires

17h15 Cortejo Cartográfico Casa Jangada > Casa 69

18h / 18h45 Ateliê [ Casa 69 ]
A prática cartográfica da Rede nas Cevenas, com Maria Alice Poppe e Marlon Miguel

19h15 / 20h15 Ateliê [ Casa 69 ]
Le musée-atelier des objets repères, com Florian Fouché

20h30 / 21h10 Performance [ Casa 69 ]
Sobre o que desaba e que não sei dizer, com Claudia Millás, dirigido por Guilherme Mattos


SÁBADO 26 DE OUTUBRO
Museu de Arte do Rio – MAR [Praça Mauá, 5 – Centro ]

10h/13h Roda de Conversa sobre Arte [Sala 2.2] (a partir da pergunta: “o que é um objeto de arte?”, os artistas participantes do evento, jovens artistas convidados e participantes de ateliês das instituições de saúde mental Casa Jangada e Casa Verde trarão objetos para suscitar a troca de ideias com o público)

11h/13h [Sala 3.3] Proposição sonoro-espacial
com Tato Taborda

14h [Sala de Encontro] Performance
com Lídia Larangeira

15h [Sala 2.2] Proposições artístico-políticas
com Coletivo Nicarágua e Ricardo Basbaum

16h [Sala 2.2] Tentativas em imagens – Moderação: Marlon Miguel
Elena Vogman: Escaping the Labyrinth. Icarus, Field Forces and Spider Webs in Kurt Lewin and Fernand Deligny
Peter Pal Pelbart: Contra os limites da linguagem, a ética da imagem
Tania Rivera: Deligny e a arte


Lanchonete Lanchonete (Rua Pedro Ernesto, 5 – Gamboa)

18h30 Lançamentos da n-1 edições e conversa aberta com o Editor Sementes de crápula (Fernand Deligny), Ritornelo (Félix Guattari), O clarão de Espinosa (Romain Rolland), Capitalismo ou revolução? (Maurizio Lazzarato), Afrotopia (Felwine Sarr), A contracultura: entre a curtição e a experimentação (Celso Favaretto), Às voltas com Lautréamont (Laymert Garcia dos Santos), As máquinas celibatárias (Michel Carrouges), Ruptura (grupo anônimo Centelha), Ensaios do Assombro (Peter Pál Pelbart).


21h Festa de encerramento (o local será divulgado posteriormente)

II Encontro Internacional Fernand Deligny: gestos poéticos e práticas políticas transversais